quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Mas não me altere o samba tanto assim


“Enquanto os indianos cada vez mais se “ocidentalizam”, adotando os padrões uniformizantes da sociedade de consumo, cresce no Ocidente o interesse pelas filosofias orientais _ ainda que, muitas vezes, de forma superficial e deformada. É o que acontece com o Yoga...

Muito se fala dos benefícios e mesmo dos “milagres” do Yoga, mas na verdade pouco se sabe a respeito, a não ser como uma forma de ginástica que faz bem à saúde, acalma e até ajuda a curar certos males. Muitas distorções são geradas pela falta de conhecimento sobre o contexto cultural onde o Yoga floresceu, não sendo apreendida, em razão disso, sua verdadeira dimensão.”


(Trecho do livro: O Yoga, Tara Michael)


O Tango é uma arte que, de certa forma, permanece intacta ao menos em nosso imaginário. Quando pensamos em Tango logo nos vem à mente a imagem daquele casal bailando de forma exímia, espetacular. Temos ciência de que se quisermos nos tornar bailarinos de tango vamos precisar de muitos anos de estudo e prática. Vamos precisar entender sua cultura, há uma determinada forma de se vestir, comportar, gesticular, olhar durante a dança, um universo imenso a ser explorado.


Imagine então se um amigo seu, aquele que a cada momento se dedica a uma nova atividade, mas que, não dá continuidade a nada, declara: _agora estou dançando tango, é super relaxante, minha saúde melhorou demais e até parei de fumar cigarros! Agora só fumo charutos...


Sabendo bem o que é o Tango você diz que admira muito a dança e o quanto é difícil sua execução. Mas seu amigo começa a descrever o quanto é fantástico o novo método de ensino do Tango, com uma abordagem terapêutica. Ele diz que neste novo método o bailado acontece em meio a uma deliciosa piscina aquecida e para estimular os bailarinos, a água recebe gotas de essências de flores que desenvolvem a precisão dos movimentos durante a execução da dança, isso enquanto o seu par desliza com vigor os pés pela sua coluna vertebral gerando assim um incrível relaxamento e descontração muscular. Tango massagem aromática, o nome é algo parecido com isso. Ele diz ainda que enquanto você nada, quer dizer, dança você passa por uma análise como a que o psicoterapeuta faz. Decidiram substituir a característica rosa vermelha pela camomila, pois ela é cicatrizante, calmante e ainda clareia os cabelos. Apenas dois instrumentos dão o ritmo à dança-massagem-aromática: atabaque e gaita de fole. O charuto ele só fuma durante o grand finale, quando incorpora Juan Guariparé, uma das entidades que trouxeram nosso tango-massagem-aromática do outro plano.


O que ocorreu com o Tango na alegoria acima foi, mais ou menos, o que ocorreu com o Yoga.


Salientar os benefícios do Yoga se tornou uma pandemia. Ao ponto de reduzir a amplitude e profusão desta filosofia de vida a algo simplesmente utilitário, um produto a mais, vendido nas prateleiras de lojas naturebas.


Não estou negando que o Yoga renda uma constelação de benefícios. Mas, muito embora, eu tenha consciência dos mesmos, eu propositalmente esqueço deles enquanto ensino.


Se eu pretendesse ensinar um sistema que cuide dos setores físicos e psíquicos eu estaria me distanciando muito daquilo que venha ser o Yoga. Eu estaria fazendo um lindo trabalho, provavelmente permitindo que muitas pessoas tivessem sua saúde restaurada. Mas eu não estaria fazendo o que amo, não estaria ensinando Yoga. Para isso temos os médicos, psicoterapeutas, terapeutas holísticos, profissionais da área da saúde, etc.


E inúmeros artigos em revistas, livros, entrevistas na tv, falam sobre os incríveis benefícios do Yoga sobre a saúde. Mas falam apenas sobre isso, limitam o Yoga.


Com o advento do marketismo foi ensinado que um produto recebe o seu destaque através de seu diferencial. Nesta fase o Yoga já havia se tornado um produto, mas muitas pessoas ofereciam este produto. A concorrência era grande.


Surgiram os diferenciais: Vinho Yoga (acreditem, existe!), lamba-Yoga, Yoga pirotécnico, Yoga para astronautas, Axé-Yoga, Yoga para cães, Yoga com varas, Yoga com alteres, e o que mais a imaginação for capaz de criar.


Quanta distância entre o Yoga e estes novos sistemas...


Um professor bastante conhecido e respeitado veio até o Brasil no ano passado e visitou a nossa cidade. Fiquei bastante feliz em perceber sua sobriedade e seu conhecimento sobre o Yoga.


O professor entrou, avistou em mim um símbolo que ele reconheceu imediatamente como atrelado à tradição de Yoga que ele admira e sua palestra não girou em torno de amenidades, foi ao ponto e declarou: _Não existe Hatha Yoga no Brasil.


Eu confesso, não teria tamanha coragem de dizer algo deste tipo. Como também não tenho o porquê fazê-lo, meu foco é outro. Mas ele certamente teve lá os seus motivos para fazer tal declaração.


Eu conheço alguns excelentes trabalhos de Hatha Yoga em nosso país, onde o professor conhece esta tradição em todas as suas dimensões.


O Yoga é tem por objetivo içar o indivíduo a um nível expandido de consciência chamado samádhi. Neste estado de consciência ele percebe que está integrado com todos os seres e elementos que fazem parte do universo. Um estado bem diferente daquele nível de consciência onde o indivíduo percebe tudo de forma fragmentada e desconexa. Para que o praticante possa galgar este nível expandido de consciência o Yoga oferece conjuntos de técnicas e conceitos que irão proporcionar uma verdadeira revolução em sua vida e é neste ponto que os benefícios se processam, porém é apenas a ponta de um gigantesco iceberg. Por este motivo acabo esquecendo que estes benefícios existem.

2 comentários:

Potira disse...

Nossa!!!

Eu falo muito sobre isso com meus amigos. Na minha cidade natal, yoga é um encontro para senhoras da alta sociedade.

Elas se reúnem para falar sobre a última tendência de decoração que elas adquiriram por uma bagatela de 10 mil e a próxima cirurgia plástica que elas irão fazer.

No intervalo elas fazem yoga como se fosse uma atividade física igual as da academia.

É por estas e outras que eu preferi não me juntar a elas...

=(

Fabio Goulart disse...

:(
Ainda bem que há professores no Brasil que entendem bem o que é Yoga e não travestem a filosofia. Há um lado agradável da moeda e isso é um alívio! Um bj Potira!